segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Capítulo 8


“Vivendo fácil, vivendo livre. Um bilhete para a temporada, numa viagem só de ida sem pedir nada, me deixe em paz. Pegando tudo em meu caminho, não preciso de razão, não preciso de rima. Não tem nada que eu prefira fazer. Descendo, hora da festa. Meus amigos vão estar lá também. Estou na estrada para o inferno”.

Sarah ON

– Sarah, e o seu dia? Como foi? – Rafaella perguntou e eu ri, pegando uma batata e colocando na boca.

         – Pra falar a verdade, foi bem agitado. Tão agitado que eu ganhei uma perna quebrada. – Ri fraco. – Estávamos correndo e o meu corredor começou a passar mal, então eu tive que substituí-lo. No final da corrida, na última curva, o carro do corredor dos Estados Unidos, Michael, colidiu com a divisória e explodiu logo em seguida. Eu estava logo atrás e fui parar na enfermaria. Ele morreu.

         Elas ficaram em silêncio por alguns minutos, Rafaella envolveu meus ombros com seu braço e Larissa encolheu os ombros, Beatriz começou a bater na mesa, nós a encaramos.

         – Vamos lá, dia da Rafaella. – Beatriz anunciou animada, sendo seguida por gritos de Bianca.

         – Ah, o meu dia foi bom. – Ela me soltou. – Tem um modelo tão gato na agência. Ele vai desfilar em Copacabana. Qual é mesmo o nome dele? Ah, lembrei! Niall Horan.

         – Nossa, que chique! – Larissa fez uma cara engraçada. – Prevejo casais sendo formados.

         – Sai dessa. – Rafaella bebericou o chopp. – Eu tenho trauma do nome “Niall”.

         – E por quê? Por causa daquele garotinho que te empurrou do brinquedo quando você tinha cinco anos e te deu essa cicatriz no braço? – Bianca perguntou.

         – Você sabe que não foi só um empurrão. Ele me batia, puxava o meu cabelo. Ele me machucava. E não foi só quando eu tinha cinco anos, foi até eu me mudar para o Brasil. Foram mais de sete anos levando pontapés e empurrões.

         – E se, por malandragem do destino, ele for o Niall que te machucava? – Beatriz perguntou com uma sobrancelha erguida.

         – É, Rafa. Ninguém tá livre disso. – Dei de ombros.

         – É o que? Vocês estão malucas? Virem essas bocas enormes pra lá! Deus me proteja desse mal. Aquele garoto era o Belzebu em pessoa. Sinceramente, se você levantar minha blusa, vai ver o tanto de cicatrizes e hematomas que vão ficar aqui pra sempre. Eu era uma idiota em não ter falado para os meus pais, pelo menos eles iriam saber como dar um jeito naquilo, mas ele me ameaçava tanto que... Argh! Vamos mudar de assunto, por favor? – Ela pediu desconfortável.

         – Ok. Larissa, seu dia. Alguma coisa incrível? – Bianca a encarou.

         – Sim, assim que...

         – Nós não queremos saber, né? Queremos saber? Não. – Bianca implicou.

         – Vá à merda. – Larissa murmurou, nós rimos alto. – Então, assim que o Brandon, corredor da Sarah, começou a passar mal, eu fui para a praça, me distrair um pouco e tirar algumas fotos. Conheci um garoto. O nome dele é Liam e ele é desenhista. Os desenhos dele são incríveis. Ele me desenhou, mas não deixou que eu visse até ele dar os acabamentos. E ele me chamou pra sair amanhã. – Sorriu animada.

         – Sério? – Beah sorriu.

         – Meu Deus! – Levantei-me e fui até Larissa, a agarrando. – Minha menininha está virando uma mulher. Meu Deus!

         – Sarah, sai! – Ela disse sem fôlego.

         – Todo mundo com coisas incríveis pra contar e eu sendo demitida. – Beatriz lamentou.

          – Oh meu Deus, tadinha da minha amiga. – Rafaella levantou e foi abraçá-la, assim como eu, Larissa e Bianca.

         – Veja pelo lado bom, você nunca vai ser tão estranha a ponto de transar com um cara que te odeia. – Bianca disse e nós rimos.

Louis ON

Cheguei em casa com a culpa estampada em meus olhos. Se mamãe estivesse aqui, provavelmente me abraçaria e afagaria meus cabelos. Papai me daria tapinhas no ombro e diria que tudo iria ficar bem, mas e se eles soubessem o verdadeiro problema? Será que ainda seriam os pais maravilhosos que me amavam?

         Sentei-me no chão da sala, encolhendo-me como uma criança abandonada no tapete. Fechei meus olhos, deixando que as lágrimas descessem. Eu não me importaria em morrer agora.

         Levantei-me do chão e subi as escadas em passos lentos, entrando no banheiro e trancando a porta, liguei a banheira e tirei toda a minha roupa e abri o armário da pia, esfregando minhas mãos em meu rosto. Rafaella não podia chegar agora.

         Peguei o pote com algumas giletes já usadas e fechei meus olhos com força, abrindo e pegando uma de lá, o que foi difícil, já que minhas mãos estavam trêmulas. Finalmente consegui pegar uma e fechei o pote, o guardando no armário novamente.

         Entrei na banheira, estendendo meu braço, deparando-me com furos antigos das injeções para satisfazer meu desejo por drogas, alguns arranhões feitos por minhas unhas e cicatrizes de cortes profundos feitos por aquelas giletes, engoli a seco.

         Fechei meus olhos com força e forcei a gilete em meu pulso, o cortando, tentando rasgar a pele do meu braço, que nunca cedia. Ela nunca se rasgava. Eu não conseguiria fazer aquilo. Eu queria ir embora. Eu não queria mais ficar ali.

         Fiz vários cortes, ouvindo a água da torneira se misturar com a água ensanguentada da banheira. Sorri quando um pouco de sangue começou a jorrar e apertei meu braço, achando que finalmente havia conseguido, mas não. Nada. Apenas sangue.

         Minha cabeça pesou assim que eu vi o tanto de sangue misturado na água, eu precisava das drogas. Eu precisava ter aquela sensação novamente ou acabaria me matando.

         Deslizei, afundando meu rosto na água, ficando deitado dentro da banheira, fechei meus olhos e senti meu pulso arder quando entrou em contato com a água.

Beatriz ON

Sarah resolveu que nós iríamos dormir na casa dela hoje, porque assim ficaria mais fácil de irmos para a rua amanhã comprar as roupas para ir Sábado ao desfile.

         Passamos na casa de Rafaella primeiro e ela mandou nós descermos, pois ela tinha que pegar bolsa, dinheiro e roupas. Bianca e Larissa se jogaram no sofá da sala e ligaram a televisão. Sarah subiu com a gente.

         – Rafa, tem alguém no banheiro? – Perguntei, vendo que a porta do banheiro estava trancada.

         – Não... Ah, deve ser o Louis. – Ela veio até mim. – Louis, você tá ai dentro? – Bateu na porta algumas vezes. – Louis!

         Ela não obteve resposta e começou a roer as unhas freneticamente.

         – Vamos ter que derrubar a porta, o Louis adora fazer merda. Sarah, chama as garotas lá embaixo. Toda ajuda é bem vinda. Merda, ele sabe que eu tenho o desfile no Sábado e estou nervosa. Pra que ele tem que fazer isso? – Rafaella vociferou e socou a porta. – Abre logo essa porta, Louis!

         – O que tá acontecendo? – Larissa perguntou sendo seguida por Sarah e Bianca.

         – O Louis tá preso lá dentro. Me ajudem. – Pediu com a voz falhando e lágrimas rolando pelas suas bochechas.

         – Eu cansava de ir para os treinos e as portas estarem fechadas. – Sarah tirou dois grampos do coque. – Licença.
         Ela colocou dois grampos na fechadura da porta e começou a movimentá-los, às vezes ela colocava o ouvido perto da maçaneta. Rafaella estava com as mãos trêmulas.

         – Bianca, traz uma água com açúcar pra Rafa. – Pedi.

         – Por que eu? – Ela perguntou indignada e Larissa a encarou com raiva. – Tá bom, já tô indo. – Ela desceu as escadas.

         – Pronto. – Sarah girou a maçaneta e entrou no banheiro. – Meu Deus! Agora eu sei de onde a Rafaella puxou a loucura.

         Rafaella se soltou de mim e entrou no banheiro, soltando um berro em seguida. Eu e Larissa entramos no banheiro a tempo de ver Rafa se jogando de joelhos na banheira e puxando o braço de um garoto que deveria ser o Louis. Ele estava pálido e o braço dele estava cortado. Muito sangue.

         – Jesus Cristo. – Bianca disse assim que entrou no banheiro.

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