segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Capítulo 7


“Já não da mais pra viver um sentimento sem sentido, eu preciso descobrir a emoção de estar contigo, ver o sol amanhecer e ver a vida acontecer como um dia de domingo. Faz de conta que ainda é cedo, tudo vai ficar por conta da emoção”.

Louis ON

– Está tudo aqui, Thiago. – Eu disse colocando as duas caixas em cima da mesa do consultório.

         – Ótimo. – Ele sorriu e eu abaixei a cabeça, engolindo a seco. – O que foi? O que mais você quer? Já pode sair daqui.

         – Você já pensou naquilo? – Perguntei inseguro, ele me encarou com dúvida.

         – Sobre o que eu deveria ter pensado? – Abaixei minha cabeça. – Louis, já está tarde. Não acha melhor você ir pra casa?

         – Eu vou poder voltar a trabalhar? – Ele me encarou sério. – No hospital. Na área de anestesia.

         – Louis, quantas vezes eu vou ter que te dizer que você só vai voltar a anestesiar quando eu tiver certeza do seu estado? Como você quer que eu deixe você voltar? Você quase matou um paciente porque entrou dopado no centro cirúrgico! Imagina o que seria do nome desse hospital se aquele homem tivesse morrido? – Respirei fundo.

         – Eu sei que eu errei, Thiago. Mas eu estou melhor agora. William é testemunha disso, faz tempo que eu não toco em nenhuma droga. – Tentei me explicar, mas Thiago parecia gostar de me ver implorando para voltar a trabalhar naquilo que eu gostava.

         – Eu não vou falar de novo. Não vou discutir com você. Você só vai voltar a anestesiar quando eu tiver certeza de que você está melhor. Agora some daqui antes que eu chame os seguranças. – Ele vociferou.

         – Thiago, eu preciso trabalhar. Eu preciso pagar as minhas contas, preciso colocar comida na minha mesa. Eu não posso continuar cuidando dos seus peixes e trazendo os remédios. Isso não me dá dinheiro. – Senti meus olhos arderem e minha garganta fechar. Eu não podia continuar assim.

         – Problema é seu, Louis. Pensasse no seu sustento antes de fazer besteira. Agora sai. Some daqui e só volte quando eu precisar dos remédios. Já alimentou meus peixes?

         Fui até o aquário e peguei o pote com a comida, despejando um pouco para os peixes enquanto prendia minhas lágrimas. Thiago ficou em silêncio enquanto eu guardava o pote e saia da sala.

         Avistei Joanne dando remédios para um paciente enquanto sorria atenciosa, fui até ela e a mesma me encarou preocupada.

         – Olha, Sr. Peter, eu vou buscar mais um medicamento. Eu já volto, ok? – Sorriu e pegou em meu braço, me levando para o laboratório. – E então? Como foi? – Sorriu esperançosa. – O Thiago finalmente resolveu te dar o seu cargo de volta?

         Senti lágrimas rolarem pela minha bochecha. Fechei meus olhos, sem coragem de encará-la. Joanne sempre ficou ao meu lado, desde antes das drogas até hoje. Ela torcia incansavelmente pra que Thiago me desse o meu emprego de volta.

         Ela era enfermeira e entrara diversas vezes comigo nos centros cirúrgicos. Ela era como uma boneca da Barbie pra mim, sem partes íntimas. Mas, se um cara a magoasse, eu o caçaria até o inferno. Era uma promessa.

         – Eu não acredito. Louis, você precisa voltar lá e insistir. – Ela disse estressada.

         – E você acha que eu não tentei? – Enxuguei minhas lágrimas, uma ação desnecessária, porque mais lágrimas apareceram para substituí-las. – Thiago é um ser do mal. Ele vai fazer de tudo pra me ter aos pés dele, implorando pra voltar.

         – Faz mais de três anos, Tomlinson. Você precisa tomar uma iniciativa. Por que você não vai para outro hospital?

         – O “outro hospital” – Fiz aspas com o dedo. – vai precisar de uma indicação do hospital em que eu trabalhava anteriormente. Thiago é o diretor, então é ele que vai dar minha indicação. Imagina as coisas que ele vai falar sobre mim?

         Joanne pensou um pouco, então ela veio até mim e me abraçou apertado, eu correspondi ao seu abraço, fechando meus olhos e tentando esquecer tudo.

         – Tudo vai acabar bem. Acredita. – Ela murmurou.

Rafaella ON

Assim que a seleção terminou, eu sai da agência as pressas e entrei em meu carro, dirigindo em direção ao bistrô. Avancei muitos sinais, quase atropelei duas crianças, mas cheguei rápido ao meu destino.

         Sai do carro em passos apressados enquanto ajeitava minha bolsa no ombro, entrei e vi as meninas rindo de alguma coisa.

         – Demorei, mas cheguei. – Respirei fundo e me sentei ao lado de Sarah. – Tudo bom, amiga? – A abracei. – Ai, comida. – Peguei um garfo e comecei a espetar as batatas.

         – Já chega assim? Não dá nem boa noite. Mal educada. – Larissa reclamou.

         – Ai. – Apoiei minha cabeça no ombro de Sarah. – Boa noite, enche o meu copo?

         – Meu Deus. – Beah riu e pegou um dos copos, enchendo-o e me entregando o mesmo.

         – Obrigada. Eu estou com os nervos à flor da pele. – Me sentei direito. – Essa pressão está acabando comigo, sem brincadeiras. Eu já estou me vendo desmaiada no dia do desfile.

         – Rafaella está desmaiada. – Sarah disse enchendo o copo.

         – Provável. – Suspirei. – Mas então, vamos esquecer o fato de eu estar quase morrendo de ansiedade. Quero fofocas. Começando pela Beatriz.

         – Fui despedida. – Ela murmurou derrotada. Sarah entortou os lábios e acariciou o braço dela.

         Larissa cuspiu o líquido que estava em sua boca, nós a encaramos com nojo.

         – Como assim? – Ela berrou. – Vai me dizer que aquele bundão do Marcus te demitiu? Meu Deus, eu ainda mato aquele cara!

         – Porca! – Bianca vociferou.

         – Qual foi o motivo? – Perguntei.

         – Sua nojenta. Pessoa escrota. Ser desprezível. – Bianca dizia enquanto limpava a mesa com guardanapos. – Sua existência é broxante.

         – Ah, o motivo? Uma garota de 16 anos que transava com ele em tempo livre. – Beah deu um gole no chopp. – O problema é que eu não sei como eu vou sustentar o meu avô, agora. Eu preciso de um emprego, mas não sei no que.

         – Garçom, traz um pano, pelo amor de Deus. – Larissa começou a rir da cara de Bianca. – Você tá rindo? Sua merda. – Bateu no braço de Larissa. – Nojenta. Porca. Fedorenta.

         – Lá na Agência tem uma ala somente de revistas, você sabe, para pessoas que produzem colunas de revistas. Eu posso ver se tem uma vaga pra você, pelo menos até você se decidir no que irá fazer futuramente.

         – Sua fedida! – Bianca vociferou, terminando de limpar a bagunça.

         – Eu adoraria, Rafa. – Ela sorriu. – Obrigada por se preocupar.

         – E, mais uma coisa, estão precisando de fotos. – Os olhos da Larissa e da Beatriz brilharam. – Eu disse que levaria vocês duas. – Elas sorriram e fizeram um high Five.

         – Vão levar a alpaca pra refrescar todo mundo, cara. – Bianca comemorou, Larissa riu. – Que coisa bonita de se ver.

         – Certas coisas... – Sarah murmurou, nós rimos.

         – Você, Bianca. – Sorri falsa pra ela.

         – Venci o Bruce Skyroz em uma competição de viradas. – Bianca sorriu vitoriosa, eu sorri maliciosa pra Beah.

         – E depois, o que vocês fizeram? – Beatriz perguntou e eu prendi a risada.

         – Transamos. – Larissa e Sarah abriram as bocas em perfeitos “O”.

         – Ué, ué, ué. – Larissa alternou o olhar entre a Bianca e eu.

         – Usaram camisinha, né? – Sarah perguntou preocupada.

         – Não. Mas o que é que tem? Eu tomo pílula. A última coisa que eu quero é um fedelho enchendo o meu saco.

         – Pudera, né? – Larissa disse rindo. – Bianca e um filho são palavras que não se encaixam na mesma frase. Sinceramente, não. Sem lógica. Não, não e não.

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