“Nós mantemos este
amor numa fotografia, nós fizemos estas memórias para nós mesmos onde nossos
olhos nunca fecham, nossos corações nunca estiveram partidos e o tempo está
congelado para sempre. Então você pode me guardar no bolso do seu jeans rasgado,
me abraçando perto até nossos olhos se encontrarem. Você nunca estará sozinha. Espere
por minha volta para casa.”
Larissa ON
Entrei no parque
depois de amarrar minha bicicleta em um lugar adequado, peguei minha câmera, a
ajeitando em meu rosto e deixando o foco na forma certa. Sentei-me na grama, e
comecei a regular o brilho e essas coisas, me baseando na claridade.
Avaliei a paisagem a minha frente. Um
casal andava de mãos dadas enquanto uma criança andava de bicicleta na frente
deles. Eu sorri e olhei outra cena, um casal de velhinhos alimentando os pombos,
um casal de jovens tomando sorvete e um garoto sentado na grama enquanto
rabiscava algumas coisas em uma tela branca.
A curiosidade tomou conta de mim e eu
me levantei da grama, andando lentamente até ele e dando uma olhada no papel em
seu colo. Era uma mulher com o nariz redondo e pequeno, lábios médios e olhos
grandes. Sorri e me posicionei afastada dele, ajeitando a câmera em meus olhos
e o chamando com um simples “psiu”, ele olhou em minha direção e eu bati a foto
sem esperar que ele se preparasse.
Seus olhos piscaram várias vezes e eu
sorri, indo ver o resultado da foto, que me agradou muito. Ele tinha um olhar
distraído por conta dos seus desenhos, os lábios fechados e as mãos ainda travadas
em seu trabalho na tela rabiscada.
– Ficou perfeita. – Observei e ele me
encarou incrédulo ainda com os olhos semiabertos. – A luz ficou ótima, você não
se assustou, a paisagem ajudou muito. Eu adorei. Bem, desculpe por ter te
atordoado com o flash, mas você é parecia um ótimo modelo.
Eu ia saindo dali, mas ele me chamou
com o mesmo “psiu” que eu havia usado. Virei-me pra trás e ele me chamou com a
mão. Fui até ele sorrindo.
– Por que você tirou uma foto minha? –
Ele perguntou sem ainda saber se usava ódio ou surpresa na voz.
– Eu gostei do ângulo, espero que não
tenha problemas com isso... – Dei de ombros e ele me encarou esperando uma
explicação mais coerente. – O que foi? Eu simplesmente gostei. Pare de me olhar
desse jeito! – Resmunguei.
Comecei a ajeitar algumas coisas na
foto e ele continuou me encarando, mas então ele se levantou e veio até mim,
depositando um dedo em meu queixo e virando, dando uma boa observada em meu
rosto de perfil, ergui uma sobrancelha com dúvida.
– O que você... – Ele não me deixou
terminar de falar.
– Será que eu poderia te desenhar? –
Ele perguntou e eu o encarei rindo.
– Ahn... Claro, por que não? – Sorri. –
É o mínimo que eu posso fazer depois de uma ótima foto. – Ele riu e nós nos
sentamos na grama, ele com o material em seu colo e eu um pouco afastada dele,
mas na sua frente. – Mas por que, exatamente, você quer me desenhar?
– Porque o seu rosto é desenhável. –
Ela riu.
– Tudo bem então. Como eu devo ficar?
– Olhe diretamente pra cá, não sorria,
ar de superioridade. Quero lhe desenhar como uma senhora dos tempos antigos. –
Assenti e o encarei com ar de superioridade, levantando um pouco as
sobrancelhas e entortando um pouco os meus lábios. – Perfeito, continue assim.
Qual é o seu nome? – Perguntou começando a desenhar.
Ele começou a alternar o olhar entre
mim e a tela branca, eu alcancei minha câmera e tirei uma foto dele assim que
ele olhou pra mim, fazendo ele riu atordoado e coçar os olhos. Olhei a foto e
sorri com meu trabalho, voltando a olhar pra ele com a mesma expressão de
antes.
Beatriz ON
– Bom dia, bom dia,
bom dia, bom dia. – Entrei cantarolando no Jornal e todos me cumprimentaram.
Eu acabara de voltar de férias e todos
estavam super animados, dizendo que teriam uma matéria imperdível para fazer, e
que eu iria liderá-la “da forma que só eu sabia fazer”. Sorri e fui até minha
mesa, onde havia objetos que não eram os meus, ergui uma sobrancelha com
dúvida.
– Parece que você não ficou sabendo da
novidade. – Ouvi uma voz feminina atrás de mim e me virei, dando de cara com
uma mulher de cabelos castanhos claros com um decote extremamente vulgar. – Seu
chefe me contratou no seu lugar. Ele não te deu a notícia?
– Ele não faria isso. – Disse
incrédula. – Quer dizer, sim, ele pode até ter feito, mas seria covardia. Eu
disse a ele que tiraria algumas semanas de férias pelo fato da minha mãe ter
passado muito mal. Ele não pode fazer uma coisa dessas.
– Queridinha, isso você resolve com
ele. – A encarei. – Ele só me contratou pra ajudar no Jornal, e não pra
responder perguntas de um biscoito água e sal igual a você.
– É o que? – Perguntei ofendida e ela
sorriu sarcástica.
– Opa, já deu. Chega. – Heitor entrou
na sala tentando nos acalmar. – Caroline, sai daqui, pelo amor de Jesus Cristo.
– Ele a empurrou da sala, mas ela se virou pra ele.
– Que pena, né? Um garoto tão bonito
igual a você defendendo essa idiotinha ai. – Riu desdenhosa.
– É, e que pena também que pra galinha
igual a você eu dou milho, não moral. – Ela rolou os olhos e entrou na sala do
meu chefe, eu joguei meus cabelos pra trás. – Beah?
– Como ele pôde fazer isso comigo,
Heitor? Ele sabe que eu preciso desse trabalho. Como eu vou fazer pra sustentar
a minha mãe? Ela precisa de remédios. – Ele me puxou pra um abraço e eu fechei
meus olhos com força, tentando prender minhas lágrimas. – Quer saber? Eu vou lá
falar com ele agora.
– Beatriz, não faça nenhuma besteira. –
Eu me soltei dele e ele tentou me segurar, mas eu fui mais rápida ao ir em
direção à porta de Marcus, meu chefe.
Abri a porta e deparei-me com a cena
mais deplorável de toda a minha vida. A tal da Caroline estava agarrada a
Marcus de forma quase obscena. Comecei a rir, mas não da cena, e sim da minha
idiotice por ainda ter tentado discutir com ela.
– Agora tudo ficou claro. – Heitor
disse atrás de mim e os dois se separaram abruptamente. – É claro que você não
trocaria uma mulher profissional igual a Beatriz por uma aprendiz igual a
Caroline sem bons motivos.
– É. E isso, pelo que eu estou vendo, é
um ótimo motivo. – Marcus me encarou envergonhado, mas Caroline me encarava com
um sorriso triunfante nos lábios. – Eu, definitivamente, não sou obrigada. –
Sai de lá e Marcus veio atrás de mim, assim como Heitor.
– Beatriz, espere um pouco, vamos
conversar. Caroline é jovem, pode te ensinar muitas coisas. – Eu me virei pra
ele e ele recuou.
– Eu não preciso que ela me ensine
nada, Marcus. – Eu disse com o choro já apertando minha garganta. – O que ela
deve me ensinar? Como fazer um boquete que deixa o seu chefe alucinado e demite
sua, como você dizia, “melhor colunista”? – Fiz aspas com os dedos, Heitor
encarou Marcus. – Muito obrigada pela proposta, Marcus, mas a resposta é não. –
Enxuguei meu rosto, só então percebendo que as lágrimas já haviam escorrido sem
minha permissão. – Eu vou arrumar minhas coisas e sair daqui. – Fui até minha
mesa, Heitor veio até mim.
– Poxa Beah, eu detesto te ver assim. –
Ele murmurou, eu neguei com a cabeça, abaixando meu olhar para as minhas
coisas, colocando tudo na caixa. – Quer saber? – Ele pegou a caixa dele e
colocou em cima da mesa. – Você vai, eu vou. – O encarei.
– Não! Claro que não. Tá ficando
maluco? Você não vai fazer isso nem por cima do meu cadáver. Não! – Fui até ele
e o impedi que continuasse guardando suas coisas.
– Beatriz, o que ele fez com você não
se faz. Foi covardia. Ele demitiu uma ótima colunista e a trocou por uma aprendiz
de vadia.
– Não fala assim Heitor. A vida é feita
de perdas também. Talvez não fosse pra eu continuar aqui, nunca se sabe. – Dei
de ombros e ele pareceu inseguro em aceitar aquilo. – Por favor, não faz isso.
– Foi injustiça. – Ele resmungou e eu
sorri, concordando.
– Mas não é motivo pra você se despedir.
Nossa amizade vai continuar, ok? – Sorri e beijei sua testa, o fazendo sorrir.
Heitor me ajudou a terminar de guardar
todos os meus pertences e Marcus veio até fora da sala dele com a gravata
desamarrada, ri desdenhosa e ele segurou meu braço quando eu ia sair.
– Beatriz, você não precisa fazer isso.
É minha melhor colunista. O jornal vai afundar sem você.
– Sabe, Marcus? Tem uma coisa que eu
tenho vontade de dizer pra você desde que cheguei aqui. – Heitor me fitou. –
Vai tomar no cu.

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