“Vivendo fácil,
vivendo livre. Um bilhete para a temporada, numa viagem só de ida sem pedir
nada, me deixe em paz. Pegando tudo em meu caminho, não preciso de razão, não
preciso de rima. Não tem nada que eu prefira fazer. Descendo, hora da festa. Meus
amigos vão estar lá também. Estou na estrada para o inferno”.
Sarah ON
– Sarah, e o seu dia?
Como foi? – Rafaella perguntou e eu ri, pegando uma batata e colocando na boca.
– Pra falar a verdade, foi bem agitado.
Tão agitado que eu ganhei uma perna quebrada. – Ri fraco. – Estávamos correndo
e o meu corredor começou a passar mal, então eu tive que substituí-lo. No final
da corrida, na última curva, o carro do corredor dos Estados Unidos, Michael,
colidiu com a divisória e explodiu logo em seguida. Eu estava logo atrás e fui
parar na enfermaria. Ele morreu.
Elas ficaram em silêncio por alguns
minutos, Rafaella envolveu meus ombros com seu braço e Larissa encolheu os
ombros, Beatriz começou a bater na mesa, nós a encaramos.
– Vamos lá, dia da Rafaella. – Beatriz
anunciou animada, sendo seguida por gritos de Bianca.
– Ah, o meu dia foi bom. – Ela me
soltou. – Tem um modelo tão gato na agência. Ele vai desfilar em Copacabana.
Qual é mesmo o nome dele? Ah, lembrei! Niall Horan.
– Nossa, que chique! – Larissa fez uma
cara engraçada. – Prevejo casais sendo formados.
– Sai dessa. – Rafaella bebericou o
chopp. – Eu tenho trauma do nome “Niall”.
– E por quê? Por causa daquele
garotinho que te empurrou do brinquedo quando você tinha cinco anos e te deu
essa cicatriz no braço? – Bianca perguntou.
– Você sabe que não foi só um empurrão.
Ele me batia, puxava o meu cabelo. Ele me machucava. E não foi só quando eu
tinha cinco anos, foi até eu me mudar para o Brasil. Foram mais de sete anos
levando pontapés e empurrões.
– E se, por malandragem do destino, ele
for o Niall que te machucava? – Beatriz perguntou com uma sobrancelha erguida.
– É, Rafa. Ninguém tá livre disso. –
Dei de ombros.
– É o que? Vocês estão malucas? Virem
essas bocas enormes pra lá! Deus me proteja desse mal. Aquele garoto era o
Belzebu em pessoa. Sinceramente, se você levantar minha blusa, vai ver o tanto
de cicatrizes e hematomas que vão ficar aqui pra sempre. Eu era uma idiota em
não ter falado para os meus pais, pelo menos eles iriam saber como dar um jeito
naquilo, mas ele me ameaçava tanto que... Argh! Vamos mudar de assunto, por
favor? – Ela pediu desconfortável.
– Ok. Larissa, seu dia. Alguma coisa
incrível? – Bianca a encarou.
– Sim, assim que...
– Nós não queremos saber, né? Queremos
saber? Não. – Bianca implicou.
– Vá à merda. – Larissa murmurou, nós
rimos alto. – Então, assim que o Brandon, corredor da Sarah, começou a passar
mal, eu fui para a praça, me distrair um pouco e tirar algumas fotos. Conheci
um garoto. O nome dele é Liam e ele é desenhista. Os desenhos dele são
incríveis. Ele me desenhou, mas não deixou que eu visse até ele dar os
acabamentos. E ele me chamou pra sair amanhã. – Sorriu animada.
– Sério? – Beah sorriu.
– Meu Deus! – Levantei-me e fui até
Larissa, a agarrando. – Minha menininha está virando uma mulher. Meu Deus!
– Sarah, sai! – Ela disse sem fôlego.
– Todo mundo com coisas incríveis pra
contar e eu sendo demitida. – Beatriz lamentou.
– Oh meu Deus, tadinha da minha amiga. –
Rafaella levantou e foi abraçá-la, assim como eu, Larissa e Bianca.
– Veja pelo lado bom, você nunca vai
ser tão estranha a ponto de transar com um cara que te odeia. – Bianca disse e
nós rimos.
Louis ON
Cheguei em casa com a
culpa estampada em meus olhos. Se mamãe estivesse aqui, provavelmente me
abraçaria e afagaria meus cabelos. Papai me daria tapinhas no ombro e diria que
tudo iria ficar bem, mas e se eles soubessem o verdadeiro problema? Será que
ainda seriam os pais maravilhosos que me amavam?
Sentei-me no chão da sala,
encolhendo-me como uma criança abandonada no tapete. Fechei meus olhos,
deixando que as lágrimas descessem. Eu não me importaria em morrer agora.
Levantei-me do chão e subi as escadas
em passos lentos, entrando no banheiro e trancando a porta, liguei a banheira e
tirei toda a minha roupa e abri o armário da pia, esfregando minhas mãos em meu
rosto. Rafaella não podia chegar agora.
Peguei o pote com algumas giletes já
usadas e fechei meus olhos com força, abrindo e pegando uma de lá, o que foi
difícil, já que minhas mãos estavam trêmulas. Finalmente consegui pegar uma e
fechei o pote, o guardando no armário novamente.
Entrei na banheira, estendendo meu
braço, deparando-me com furos antigos das injeções para satisfazer meu desejo
por drogas, alguns arranhões feitos por minhas unhas e cicatrizes de cortes
profundos feitos por aquelas giletes, engoli a seco.
Fechei meus olhos com força e forcei a
gilete em meu pulso, o cortando, tentando rasgar a pele do meu braço, que nunca
cedia. Ela nunca se rasgava. Eu não conseguiria fazer aquilo. Eu queria ir
embora. Eu não queria mais ficar ali.
Fiz vários cortes, ouvindo a água da
torneira se misturar com a água ensanguentada da banheira. Sorri quando um pouco
de sangue começou a jorrar e apertei meu braço, achando que finalmente havia
conseguido, mas não. Nada. Apenas sangue.
Minha cabeça pesou assim que eu vi o
tanto de sangue misturado na água, eu precisava das drogas. Eu precisava ter
aquela sensação novamente ou acabaria me matando.
Deslizei, afundando meu rosto na água,
ficando deitado dentro da banheira, fechei meus olhos e senti meu pulso arder
quando entrou em contato com a água.
Beatriz ON
Sarah resolveu que
nós iríamos dormir na casa dela hoje, porque assim ficaria mais fácil de irmos
para a rua amanhã comprar as roupas para ir Sábado ao desfile.
Passamos na casa de Rafaella primeiro e
ela mandou nós descermos, pois ela tinha que pegar bolsa, dinheiro e roupas.
Bianca e Larissa se jogaram no sofá da sala e ligaram a televisão. Sarah subiu
com a gente.
– Rafa, tem alguém no banheiro? –
Perguntei, vendo que a porta do banheiro estava trancada.
– Não... Ah, deve ser o Louis. – Ela
veio até mim. – Louis, você tá ai dentro? – Bateu na porta algumas vezes. –
Louis!
Ela não obteve resposta e começou a
roer as unhas freneticamente.
– Vamos ter que derrubar a porta, o
Louis adora fazer merda. Sarah, chama as garotas lá embaixo. Toda ajuda é bem
vinda. Merda, ele sabe que eu tenho o desfile no Sábado e estou nervosa. Pra
que ele tem que fazer isso? – Rafaella vociferou e socou a porta. – Abre logo
essa porta, Louis!
– O que tá acontecendo? – Larissa
perguntou sendo seguida por Sarah e Bianca.
– O Louis tá preso lá dentro. Me
ajudem. – Pediu com a voz falhando e lágrimas rolando pelas suas bochechas.
– Eu cansava de ir para os treinos e as
portas estarem fechadas. – Sarah tirou dois grampos do coque. – Licença.
Ela colocou dois grampos na fechadura
da porta e começou a movimentá-los, às vezes ela colocava o ouvido perto da
maçaneta. Rafaella estava com as mãos trêmulas.
– Bianca, traz uma água com açúcar pra
Rafa. – Pedi.
– Por que eu? – Ela perguntou indignada
e Larissa a encarou com raiva. – Tá bom, já tô indo. – Ela desceu as escadas.
– Pronto. – Sarah girou a maçaneta e
entrou no banheiro. – Meu Deus! Agora eu sei de onde a Rafaella puxou a
loucura.
Rafaella se soltou de mim e entrou no
banheiro, soltando um berro em seguida. Eu e Larissa entramos no banheiro a
tempo de ver Rafa se jogando de joelhos na banheira e puxando o braço de um
garoto que deveria ser o Louis. Ele estava pálido e o braço dele estava
cortado. Muito sangue.
– Jesus Cristo. – Bianca disse assim
que entrou no banheiro.



