segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Capítulo 8


“Vivendo fácil, vivendo livre. Um bilhete para a temporada, numa viagem só de ida sem pedir nada, me deixe em paz. Pegando tudo em meu caminho, não preciso de razão, não preciso de rima. Não tem nada que eu prefira fazer. Descendo, hora da festa. Meus amigos vão estar lá também. Estou na estrada para o inferno”.

Sarah ON

– Sarah, e o seu dia? Como foi? – Rafaella perguntou e eu ri, pegando uma batata e colocando na boca.

         – Pra falar a verdade, foi bem agitado. Tão agitado que eu ganhei uma perna quebrada. – Ri fraco. – Estávamos correndo e o meu corredor começou a passar mal, então eu tive que substituí-lo. No final da corrida, na última curva, o carro do corredor dos Estados Unidos, Michael, colidiu com a divisória e explodiu logo em seguida. Eu estava logo atrás e fui parar na enfermaria. Ele morreu.

         Elas ficaram em silêncio por alguns minutos, Rafaella envolveu meus ombros com seu braço e Larissa encolheu os ombros, Beatriz começou a bater na mesa, nós a encaramos.

         – Vamos lá, dia da Rafaella. – Beatriz anunciou animada, sendo seguida por gritos de Bianca.

         – Ah, o meu dia foi bom. – Ela me soltou. – Tem um modelo tão gato na agência. Ele vai desfilar em Copacabana. Qual é mesmo o nome dele? Ah, lembrei! Niall Horan.

         – Nossa, que chique! – Larissa fez uma cara engraçada. – Prevejo casais sendo formados.

         – Sai dessa. – Rafaella bebericou o chopp. – Eu tenho trauma do nome “Niall”.

         – E por quê? Por causa daquele garotinho que te empurrou do brinquedo quando você tinha cinco anos e te deu essa cicatriz no braço? – Bianca perguntou.

         – Você sabe que não foi só um empurrão. Ele me batia, puxava o meu cabelo. Ele me machucava. E não foi só quando eu tinha cinco anos, foi até eu me mudar para o Brasil. Foram mais de sete anos levando pontapés e empurrões.

         – E se, por malandragem do destino, ele for o Niall que te machucava? – Beatriz perguntou com uma sobrancelha erguida.

         – É, Rafa. Ninguém tá livre disso. – Dei de ombros.

         – É o que? Vocês estão malucas? Virem essas bocas enormes pra lá! Deus me proteja desse mal. Aquele garoto era o Belzebu em pessoa. Sinceramente, se você levantar minha blusa, vai ver o tanto de cicatrizes e hematomas que vão ficar aqui pra sempre. Eu era uma idiota em não ter falado para os meus pais, pelo menos eles iriam saber como dar um jeito naquilo, mas ele me ameaçava tanto que... Argh! Vamos mudar de assunto, por favor? – Ela pediu desconfortável.

         – Ok. Larissa, seu dia. Alguma coisa incrível? – Bianca a encarou.

         – Sim, assim que...

         – Nós não queremos saber, né? Queremos saber? Não. – Bianca implicou.

         – Vá à merda. – Larissa murmurou, nós rimos alto. – Então, assim que o Brandon, corredor da Sarah, começou a passar mal, eu fui para a praça, me distrair um pouco e tirar algumas fotos. Conheci um garoto. O nome dele é Liam e ele é desenhista. Os desenhos dele são incríveis. Ele me desenhou, mas não deixou que eu visse até ele dar os acabamentos. E ele me chamou pra sair amanhã. – Sorriu animada.

         – Sério? – Beah sorriu.

         – Meu Deus! – Levantei-me e fui até Larissa, a agarrando. – Minha menininha está virando uma mulher. Meu Deus!

         – Sarah, sai! – Ela disse sem fôlego.

         – Todo mundo com coisas incríveis pra contar e eu sendo demitida. – Beatriz lamentou.

          – Oh meu Deus, tadinha da minha amiga. – Rafaella levantou e foi abraçá-la, assim como eu, Larissa e Bianca.

         – Veja pelo lado bom, você nunca vai ser tão estranha a ponto de transar com um cara que te odeia. – Bianca disse e nós rimos.

Louis ON

Cheguei em casa com a culpa estampada em meus olhos. Se mamãe estivesse aqui, provavelmente me abraçaria e afagaria meus cabelos. Papai me daria tapinhas no ombro e diria que tudo iria ficar bem, mas e se eles soubessem o verdadeiro problema? Será que ainda seriam os pais maravilhosos que me amavam?

         Sentei-me no chão da sala, encolhendo-me como uma criança abandonada no tapete. Fechei meus olhos, deixando que as lágrimas descessem. Eu não me importaria em morrer agora.

         Levantei-me do chão e subi as escadas em passos lentos, entrando no banheiro e trancando a porta, liguei a banheira e tirei toda a minha roupa e abri o armário da pia, esfregando minhas mãos em meu rosto. Rafaella não podia chegar agora.

         Peguei o pote com algumas giletes já usadas e fechei meus olhos com força, abrindo e pegando uma de lá, o que foi difícil, já que minhas mãos estavam trêmulas. Finalmente consegui pegar uma e fechei o pote, o guardando no armário novamente.

         Entrei na banheira, estendendo meu braço, deparando-me com furos antigos das injeções para satisfazer meu desejo por drogas, alguns arranhões feitos por minhas unhas e cicatrizes de cortes profundos feitos por aquelas giletes, engoli a seco.

         Fechei meus olhos com força e forcei a gilete em meu pulso, o cortando, tentando rasgar a pele do meu braço, que nunca cedia. Ela nunca se rasgava. Eu não conseguiria fazer aquilo. Eu queria ir embora. Eu não queria mais ficar ali.

         Fiz vários cortes, ouvindo a água da torneira se misturar com a água ensanguentada da banheira. Sorri quando um pouco de sangue começou a jorrar e apertei meu braço, achando que finalmente havia conseguido, mas não. Nada. Apenas sangue.

         Minha cabeça pesou assim que eu vi o tanto de sangue misturado na água, eu precisava das drogas. Eu precisava ter aquela sensação novamente ou acabaria me matando.

         Deslizei, afundando meu rosto na água, ficando deitado dentro da banheira, fechei meus olhos e senti meu pulso arder quando entrou em contato com a água.

Beatriz ON

Sarah resolveu que nós iríamos dormir na casa dela hoje, porque assim ficaria mais fácil de irmos para a rua amanhã comprar as roupas para ir Sábado ao desfile.

         Passamos na casa de Rafaella primeiro e ela mandou nós descermos, pois ela tinha que pegar bolsa, dinheiro e roupas. Bianca e Larissa se jogaram no sofá da sala e ligaram a televisão. Sarah subiu com a gente.

         – Rafa, tem alguém no banheiro? – Perguntei, vendo que a porta do banheiro estava trancada.

         – Não... Ah, deve ser o Louis. – Ela veio até mim. – Louis, você tá ai dentro? – Bateu na porta algumas vezes. – Louis!

         Ela não obteve resposta e começou a roer as unhas freneticamente.

         – Vamos ter que derrubar a porta, o Louis adora fazer merda. Sarah, chama as garotas lá embaixo. Toda ajuda é bem vinda. Merda, ele sabe que eu tenho o desfile no Sábado e estou nervosa. Pra que ele tem que fazer isso? – Rafaella vociferou e socou a porta. – Abre logo essa porta, Louis!

         – O que tá acontecendo? – Larissa perguntou sendo seguida por Sarah e Bianca.

         – O Louis tá preso lá dentro. Me ajudem. – Pediu com a voz falhando e lágrimas rolando pelas suas bochechas.

         – Eu cansava de ir para os treinos e as portas estarem fechadas. – Sarah tirou dois grampos do coque. – Licença.
         Ela colocou dois grampos na fechadura da porta e começou a movimentá-los, às vezes ela colocava o ouvido perto da maçaneta. Rafaella estava com as mãos trêmulas.

         – Bianca, traz uma água com açúcar pra Rafa. – Pedi.

         – Por que eu? – Ela perguntou indignada e Larissa a encarou com raiva. – Tá bom, já tô indo. – Ela desceu as escadas.

         – Pronto. – Sarah girou a maçaneta e entrou no banheiro. – Meu Deus! Agora eu sei de onde a Rafaella puxou a loucura.

         Rafaella se soltou de mim e entrou no banheiro, soltando um berro em seguida. Eu e Larissa entramos no banheiro a tempo de ver Rafa se jogando de joelhos na banheira e puxando o braço de um garoto que deveria ser o Louis. Ele estava pálido e o braço dele estava cortado. Muito sangue.

         – Jesus Cristo. – Bianca disse assim que entrou no banheiro.

Capítulo 7


“Já não da mais pra viver um sentimento sem sentido, eu preciso descobrir a emoção de estar contigo, ver o sol amanhecer e ver a vida acontecer como um dia de domingo. Faz de conta que ainda é cedo, tudo vai ficar por conta da emoção”.

Louis ON

– Está tudo aqui, Thiago. – Eu disse colocando as duas caixas em cima da mesa do consultório.

         – Ótimo. – Ele sorriu e eu abaixei a cabeça, engolindo a seco. – O que foi? O que mais você quer? Já pode sair daqui.

         – Você já pensou naquilo? – Perguntei inseguro, ele me encarou com dúvida.

         – Sobre o que eu deveria ter pensado? – Abaixei minha cabeça. – Louis, já está tarde. Não acha melhor você ir pra casa?

         – Eu vou poder voltar a trabalhar? – Ele me encarou sério. – No hospital. Na área de anestesia.

         – Louis, quantas vezes eu vou ter que te dizer que você só vai voltar a anestesiar quando eu tiver certeza do seu estado? Como você quer que eu deixe você voltar? Você quase matou um paciente porque entrou dopado no centro cirúrgico! Imagina o que seria do nome desse hospital se aquele homem tivesse morrido? – Respirei fundo.

         – Eu sei que eu errei, Thiago. Mas eu estou melhor agora. William é testemunha disso, faz tempo que eu não toco em nenhuma droga. – Tentei me explicar, mas Thiago parecia gostar de me ver implorando para voltar a trabalhar naquilo que eu gostava.

         – Eu não vou falar de novo. Não vou discutir com você. Você só vai voltar a anestesiar quando eu tiver certeza de que você está melhor. Agora some daqui antes que eu chame os seguranças. – Ele vociferou.

         – Thiago, eu preciso trabalhar. Eu preciso pagar as minhas contas, preciso colocar comida na minha mesa. Eu não posso continuar cuidando dos seus peixes e trazendo os remédios. Isso não me dá dinheiro. – Senti meus olhos arderem e minha garganta fechar. Eu não podia continuar assim.

         – Problema é seu, Louis. Pensasse no seu sustento antes de fazer besteira. Agora sai. Some daqui e só volte quando eu precisar dos remédios. Já alimentou meus peixes?

         Fui até o aquário e peguei o pote com a comida, despejando um pouco para os peixes enquanto prendia minhas lágrimas. Thiago ficou em silêncio enquanto eu guardava o pote e saia da sala.

         Avistei Joanne dando remédios para um paciente enquanto sorria atenciosa, fui até ela e a mesma me encarou preocupada.

         – Olha, Sr. Peter, eu vou buscar mais um medicamento. Eu já volto, ok? – Sorriu e pegou em meu braço, me levando para o laboratório. – E então? Como foi? – Sorriu esperançosa. – O Thiago finalmente resolveu te dar o seu cargo de volta?

         Senti lágrimas rolarem pela minha bochecha. Fechei meus olhos, sem coragem de encará-la. Joanne sempre ficou ao meu lado, desde antes das drogas até hoje. Ela torcia incansavelmente pra que Thiago me desse o meu emprego de volta.

         Ela era enfermeira e entrara diversas vezes comigo nos centros cirúrgicos. Ela era como uma boneca da Barbie pra mim, sem partes íntimas. Mas, se um cara a magoasse, eu o caçaria até o inferno. Era uma promessa.

         – Eu não acredito. Louis, você precisa voltar lá e insistir. – Ela disse estressada.

         – E você acha que eu não tentei? – Enxuguei minhas lágrimas, uma ação desnecessária, porque mais lágrimas apareceram para substituí-las. – Thiago é um ser do mal. Ele vai fazer de tudo pra me ter aos pés dele, implorando pra voltar.

         – Faz mais de três anos, Tomlinson. Você precisa tomar uma iniciativa. Por que você não vai para outro hospital?

         – O “outro hospital” – Fiz aspas com o dedo. – vai precisar de uma indicação do hospital em que eu trabalhava anteriormente. Thiago é o diretor, então é ele que vai dar minha indicação. Imagina as coisas que ele vai falar sobre mim?

         Joanne pensou um pouco, então ela veio até mim e me abraçou apertado, eu correspondi ao seu abraço, fechando meus olhos e tentando esquecer tudo.

         – Tudo vai acabar bem. Acredita. – Ela murmurou.

Rafaella ON

Assim que a seleção terminou, eu sai da agência as pressas e entrei em meu carro, dirigindo em direção ao bistrô. Avancei muitos sinais, quase atropelei duas crianças, mas cheguei rápido ao meu destino.

         Sai do carro em passos apressados enquanto ajeitava minha bolsa no ombro, entrei e vi as meninas rindo de alguma coisa.

         – Demorei, mas cheguei. – Respirei fundo e me sentei ao lado de Sarah. – Tudo bom, amiga? – A abracei. – Ai, comida. – Peguei um garfo e comecei a espetar as batatas.

         – Já chega assim? Não dá nem boa noite. Mal educada. – Larissa reclamou.

         – Ai. – Apoiei minha cabeça no ombro de Sarah. – Boa noite, enche o meu copo?

         – Meu Deus. – Beah riu e pegou um dos copos, enchendo-o e me entregando o mesmo.

         – Obrigada. Eu estou com os nervos à flor da pele. – Me sentei direito. – Essa pressão está acabando comigo, sem brincadeiras. Eu já estou me vendo desmaiada no dia do desfile.

         – Rafaella está desmaiada. – Sarah disse enchendo o copo.

         – Provável. – Suspirei. – Mas então, vamos esquecer o fato de eu estar quase morrendo de ansiedade. Quero fofocas. Começando pela Beatriz.

         – Fui despedida. – Ela murmurou derrotada. Sarah entortou os lábios e acariciou o braço dela.

         Larissa cuspiu o líquido que estava em sua boca, nós a encaramos com nojo.

         – Como assim? – Ela berrou. – Vai me dizer que aquele bundão do Marcus te demitiu? Meu Deus, eu ainda mato aquele cara!

         – Porca! – Bianca vociferou.

         – Qual foi o motivo? – Perguntei.

         – Sua nojenta. Pessoa escrota. Ser desprezível. – Bianca dizia enquanto limpava a mesa com guardanapos. – Sua existência é broxante.

         – Ah, o motivo? Uma garota de 16 anos que transava com ele em tempo livre. – Beah deu um gole no chopp. – O problema é que eu não sei como eu vou sustentar o meu avô, agora. Eu preciso de um emprego, mas não sei no que.

         – Garçom, traz um pano, pelo amor de Deus. – Larissa começou a rir da cara de Bianca. – Você tá rindo? Sua merda. – Bateu no braço de Larissa. – Nojenta. Porca. Fedorenta.

         – Lá na Agência tem uma ala somente de revistas, você sabe, para pessoas que produzem colunas de revistas. Eu posso ver se tem uma vaga pra você, pelo menos até você se decidir no que irá fazer futuramente.

         – Sua fedida! – Bianca vociferou, terminando de limpar a bagunça.

         – Eu adoraria, Rafa. – Ela sorriu. – Obrigada por se preocupar.

         – E, mais uma coisa, estão precisando de fotos. – Os olhos da Larissa e da Beatriz brilharam. – Eu disse que levaria vocês duas. – Elas sorriram e fizeram um high Five.

         – Vão levar a alpaca pra refrescar todo mundo, cara. – Bianca comemorou, Larissa riu. – Que coisa bonita de se ver.

         – Certas coisas... – Sarah murmurou, nós rimos.

         – Você, Bianca. – Sorri falsa pra ela.

         – Venci o Bruce Skyroz em uma competição de viradas. – Bianca sorriu vitoriosa, eu sorri maliciosa pra Beah.

         – E depois, o que vocês fizeram? – Beatriz perguntou e eu prendi a risada.

         – Transamos. – Larissa e Sarah abriram as bocas em perfeitos “O”.

         – Ué, ué, ué. – Larissa alternou o olhar entre a Bianca e eu.

         – Usaram camisinha, né? – Sarah perguntou preocupada.

         – Não. Mas o que é que tem? Eu tomo pílula. A última coisa que eu quero é um fedelho enchendo o meu saco.

         – Pudera, né? – Larissa disse rindo. – Bianca e um filho são palavras que não se encaixam na mesma frase. Sinceramente, não. Sem lógica. Não, não e não.

Capítulo 6


“Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia e na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia, eu preciso te tocar e outra vez te ver sorrindo, e voltar num sonho lindo”.

Rafaella ON

– Pode ser pelo bofe. Menina, é um bofe maravilhoso. – Ri. – Você precisa ver que coisa fantástica que ele é. – Ele sussurrou, me fazendo rir mais ainda.

         – Daniel, olha esse fogo. – Abaixei minha cabeça, tentando controlar minha risada.

         – Modelo Niall James Horan, pode entrar. – Ele disse manhoso no microfone e eu ri alto.

Beatriz ON

Mas que babaquice da parte daquele nojento! Eu te disse que ele não era boa pessoa, Beatriz, mas você nunca me escuta. – Sarah resmungou do outro lado da linha.

         – É, mas eu pensei que ele fosse gente boa. Não achei que ele fosse capaz de me trocar por uma garota de 16 anos. – Entrei no meu carro e coloquei minha bolsa no banco de carona.

         – Como eu queria dar na cara desse infeliz, onde já se viu? Fazer isso com a minha amiga. Quem ele pensa que é? O rei da cocada branca? Pois não é. – Ri fraco de sua indignação.

         – Vaca, eu vou dirigir. A saída de hoje a noite tá confirmada? As meninas vão mesmo? – Perguntei fechando a porta e ligando o carro.

         – Vão. Eu estou um pouco preocupada. – Dei ré, saindo do estacionamento.

         – Ué, e por quê? – Liguei o rádio.

         – Bianca não vai se contentar com um chope. Tô vendo que vamos ter que levar alguém pra casa. – Ri. Sarah era um projeto de mãe coruja.

         – Ela sabe se cuidar, mesmo com bebidas nas ideias. Deixa ela ser feliz. Desde que não gaste meu dinheiro pra esquecer os problemas, estamos bem. – Sarah riu fraco. – Tchau.

         – Tchau. – Ela desligou o celular.

Larissa ON

Encarei a Polaroid de Liam em minha mão e sorri. A sua expressão concentrada me fazia sorrir. Ele não havia me deixado ver o meu desenho pronto, o que me fez fingir estar com raiva dele. Ele era o tipo de cara para se ter uma boa amizade.

         Meu celular começou a tocar Guns em uma altura muita baixa para a música boa. Eu o atendi.

         – Alô?!

         – Qual é o seu signo? Qual o dia e hora que você nasceu? – A pessoa me perguntou rápido.

         – Primeiramente, quem é? – Sentei-me em minha cama.

         – Eu perguntei primeiro.

         – E eu perguntei segundo. – A pessoa do outro lado da linha riu.

         – Liam.

         – Sou de Escorpião. Nasci no dia 15 de Novembro e nasci às 07h00min da manhã, exatamente as 07h00min. Mas por que isso?

Liam ON

– Eu liguei para a cigana conhecida de uma amiga, a Mãe Zuleia, conhece? – Ela riu alto. – Ela disse que eu precisava desses dados para fazer um tal de mapa astral.

         Eu nunca vou me esquecer do som daquela risada exagerada.

         – Você quer sair comigo? – Pergunto e ela para de rir aos poucos.

         – Não sei.

         – Ué, se eu posso te fazer rir assim, por que não passa um dia da sua vida comigo? – Ela riu baixinho.

         – Tá bom, Liam. Você venceu.

         – Amanhã eu te busco às 20h00min. – Tirei meus sapatos e me joguei na cama.

         – Ás 22h00min. – Ela retrucou.

         – Às 21h00min.

         – Às 21h45min. – Ela desligou o telefone.

Bianca ON

– Garçom, aqui nessa mesa de bar. – Entrei no bar cantarolando. Sarah e Larissa riram. – Cadê as outras? – Joguei minha bolsa ao lado das delas e beijei a bochecha das duas, me sentando na ponta da mesa. 

         – Atrasadas. – Larissa respondeu rolando os olhos.

         – Há! – Debochei. – Quero novidade. Principalmente Srta. Noiva vulgo Beatriz. – Rimos. – Vocês já pediram?

         – Ainda não. Quer pedir? Pode pedir. Estávamos esperando mais alguém chegar.

         Eu chamei o garçom e Larissa foi pra fora do bistrô ligar para as meninas, Sarah se sentou perto de mim.

         – Se eu te contar, você não acredita.

         – Então não conta. – Dei de ombros. – Boa noite, eu vou querer duas porções de frango a passarinho, uma de batata frita e um tubo de chope. – O garçom assentiu e saiu dali.

         – O Zayn quer que formemos uma dupla. Você crê nisso? Eu e aquele mimadinho de merda formando uma dupla. – A encarei. – Ele não tem coragem de assumir que não sabe nada sobre aquilo. Veja bem, com papai me pagando tudo, até eu iria querer entrar nesse mundo. Ganhamos bem.

         – Você tá afim dele. – Conclui, Sarah me encarou incrédula.

         – O que? Eu? Não. Qual é o seu problema?

         – Se você não estivesse afim dele, não se preocuparia.

         – Não. Eu me preocupo com quem tenta entrar por conta própria e não consegue porque tem um boiola mimado impedindo. Eu não quero nada com ele. – Riu incrédula.

         – Isso tem outro nome. – Sorri irônica pra ela. – Desapego? – Pensei um pouco. – Não. Superioridade? Hm... Também não. Falta de porrada? Talvez. Ah, – Estalei meu dedo. – lembrei: Cu doce. – Sarah rolou os olhos.

         – As meninas já estão vindo. Rafaella ainda está na agência e Beatriz está arrumando um lugar pra estacionar o carro. – Larissa avisou entrando no local e indo se sentar.

         – Já achei. – Beatriz entrou no bistrô e sorriu animada, ela falou com a gente e sentou-se ao lado de Larissa. – Cadê a comida?

         – Aqui está, senhora. – O garçom colocou os copos e os petiscos em cima da mesa. – O tubo já está vindo.

         – Ok, obrigada. – Sorri atenciosa.

Rafaella ON

Um garoto loiro entrou na sala usando somente uma box preta, Daniel engoliu a seco e começou a se abanar discretamente, eu ri de sua palhaçada.

         O garoto rodou e sorriu. E que sorriso.

         – Então, vo-vo-você é Niall James Ho-horan? Certo? – Daniel disse e eu rolei os olhos, indo até ele.

         – Quando estiver desfilando em Copacabana, lembre-se de fixar sua atenção em um ponto. É uma praia, terão várias meninas de biquíni, não faltarão opções. – Ele riu fraco. – Seu corpo tem as medidas que eu quero, então você está dentro. – Sorri e ajeitei a placa em seu pescoço, voltando para o meu lugar.

         – Como você consegue agir tão naturalmente com um Deus Grego desses bem aqui? – Daniel perguntou murmurando.

         – Simples: Eu não sou foguenta igual a você. – Daniel me encarou com os 
olhos semicerrados.

         – Próxima modelo. – Ri alto.

Beatriz ON

– Poxa! – Sarah resmungou. – Cadê a Tomlinson? – Enchi meu copo.

         – Estão maravilhosas. – Larissa disse de boca cheia. – Como eu digo, batatas são vegetais divinos.

         – O Louis acabou de me mandar uma mensagem. – Bianca se pronunciou. – Ele disse que Rafa mandou avisar que está fazendo as seleções das modelos. Vai demorar uns quinze minutos.

         – Quem é Louis? – Perguntei curiosa.

         – Irmão da Rafa. – Sarah me amostrou o celular com uma foto de um garoto de olhos azuis e cabelos castanhos. – Não se apaixone, ele é um viciado. Não é o cara certo pra você, amiga.



Capítulo 5


“Grandes argolas e lábios escuros, minhas amigas bagunçando em meu Maserati. Chiques em Santa Barbara, no La Super Rica. Pegando os tacos, conferindo os gatos, agora estamos falando de astrologia fazendo as nossas unhas no estilo japonês. De manhã bebendo no Wildcat, cantando muito mal Mariah Carey no karaokê. Isso não é grande coisa, é o que nós fazemos, sim, relaxamos, descontraímos. Somos cativantes”.

Rafaella ON

– Eu não acredito que você e o Bruce transaram. – Beatriz exclamou enquanto Bianca bebia água. Ela deu de ombros.

         – Ué, o que é que tem? Estávamos bêbados. – Ela ligou a esteira e começou a correr ao meu lado, enquanto Beatriz secava o suor e o professor regulava a bicicleta pra ela.

         – Pelo menos você tem isso ao seu favor. – Beatriz riu e agradeceu a ele. Subindo na bicicleta e começando a pedalar.

         – Nada de “tem isso ao seu favor”, Beatriz. Não a apoie. – Bianca rolou os olhos. – Você podia muito bem ser modelo, cozinheira, qualquer coisa, menos isso. – Beatriz riu da minha preocupação. – Tudo o que você vai conseguir com isso é um estômago ferrado, uma garganta toda machucada e um fígado todo arruinado. Sem falar dos seus rins.

         – Euem, quando eu morrer os bichos vão comer tudo mesmo. – Deu de ombros. Beatriz riu.

         – Para de rir, Beatriz. Isso não é engraçado. – Vociferei e ela me encarou incrédula.

         – Deixa de ser chata. Nem ela que fez a merda está tão preocupada assim, porque você tem que ficar? Meu Deus! – Bianca riu e fez um high-five com a Menezes, rolei meus olhos.

         – Quero ver quando for pra cama com alguém que não presta. Alguém que faça o que... – Bianca não deixou que eu terminasse de falar.

         – Vira essa boca pra lá, minha filha. – Secou o suor e continuou correndo na esteira. – Eu nunca fiquei bêbada a esse ponto e nunca vou ficar. Pelo amor de Deus, não fala merda. Eu fico bêbada, mas tenho consciência do que eu faço.

         – Então você sabia que estava indo pra cama com o Bruce? – Beatriz perguntou parando de pedalar.

         Bianca parou de fazer a esteira e deu de ombros enquanto ia para a bicicleta, eu e Beatriz caímos na gargalhada.

         – Meu Deus, Bianca. Você estava consciente? – Perguntei rindo e Beatriz voltou a pedalar.

         – E que mal tem? – Ela perguntou rindo. – Eu sou uma mulher solteira, livre, com 21 anos e que fica bêbada constantemente. Bruce Skyroz é um meio divorciado, livre, com 34 anos e que fica bêbado constantemente. Nós temos direito. – Beatriz concordou, mas eu não consegui parar de rir da “inocência” dela.

Sarah ON

Abri meus olhos devagar, tentando me acostumar com a claridade do local, com o movimento, com as vozes altas e com a minha dor de cabeça. Eu estava na enfermaria.

         – Ela está acordando. Sarah, será que pode nos contar o que aconteceu hoje? – Um dele colocou o microfone em meu nariz. Arregalei meus olhos.

         – Você e Michael eram amigos? – Outro perguntou.

         – Já que ele está morto, você se considera vencedora por estar em segundo lugar?

         – Ele está morto? – Perguntei atordoada.

         – Gente, ela precisa descansar. – Julia tentou afastá-los de mim, mas tudo que ela conseguiu foi cair em cima de mim, fazendo com que eu berrasse de dor.

         – Calados! – Ouvi alguém berrando da porta, olhei para a mesma e vi Larissa com os olhos arregalados. – Ca-la-dos! – Soletrou gritando. – Jesus Cristo, saiam daqui!

         Ela deu passagem e todos saíram dali, menos os médicos, que estavam prensados na parede por conta da multidão anterior, Brandon, que estava sentado em outra maca e Julia, que continuava em cima de mim.

         – Obrigado. – Um dos médicos agradeceu a Larissa, que assentiu.

         – Ai amiga, como você está? Eu vim pra cá assim que soube. – Ela veio até mim, colocando a bolsa em cima de Brandon. – Oi Brandon, tudo bom? – Ele assentiu em silêncio.

         – Eu me senti como a Prim. – Ela riu.

         – Iá! Tá parecendo uma criancinha com a perna enfaixada. – Brandon e Julia riram.

         Os corredores entraram na sala e os médicos saindo. Julia sentou-se ao lado de Brandon antes que pudesse ser engolida pela multidão. Alguns deles me entregaram flores, já outros tiraram o capacete. Zayn estava na porta, com cara de poucos amigos.

         – Lo que importa es que estás bien... – Uma menina com a pele bronzeada e cabelos castanhos disse sorrindo. – ¿Hay algo que podamos hacer por usted? Debe ser dolorosa.

         – No, gracias. Sólo quiero hablar con la prensa que no me siento ganador de estar detrás de Michael. Ninguno de nosotros lo hizo. Él fue el primero y el mérito es suyo. La culpa no es mía si estarían tan codicioso ese punto. Por favor, decirles eso. – Zayn riu irônico e eu o encarei. – Algum problema, Sr. Malik?

         – Zou je kunnen vragen voor hen allemaal hier uit? – Larissa pediu para uma menina holandesa, que assentiu e levou todos para fora. – Você não, Zayn.

         – Meu Deus, ela fala holandês! – Brandon foi abraçar Larissa, mas ela se esquivou com os olhos arregalados.

         – O que a madame quer comigo? – Ele se sentou em uma das poltronas, os médicos saíram da sala. Julia cruzou os braços.

         – Vamos lá pra fora. – Julia disse, chamando Larissa e Brandon. – Deixa eles se resolverem.

         Eles saíram da sala e eu me levantei da cama com dificuldade, minha perna estava mais do que dolorida. Peguei minha bolsa e abri a mesma, o senti caminhando até mim.

         – Você é muito sonsa. – Ele disse e eu ri, negando com a cabeça.

         – Eu? Ok.

         Zayn segurou meu queixo com força, me empurrando contra a parede, eu fechei meus olhos de dor.

         – Ou a gente vira uma equipe ou você vai ter que me aguentar. - Zayn ameaçou.

         – Larga de ser fútil! – Ele riu.

         – Me respeita, Serrano. Eu estou te ajudando!

         – Sabe por que você quer que viremos uma equipe? Porque você tem o dinheiro, eu tenho a sabedoria. Sei tudo sobre essas máquinas e estou há anos na pista. Quando você ia com a farinha, eu estava voltando com o bolo pronto. – Ele apertou mais o meu rosto.

         – É, talvez seja por isso, ou pelo simples fato de que, com uma garota gostosa igual e você, eu terei muitas portas abertas. – Levou um dedo até o fecho frontal do meu roupão e foi abrindo o mesmo.

         Levei meu pé bom até seu abdome e o afastei de mim, fazendo ele esbarrar na cama, sentei-me na cama, fraca e com uma dor infernal na perna esquerda.

         – Sai daqui agora, Malik! – Vociferei. – Ou eu chamo os seguranças.

         – Chama. Eu não tô nem ai. – Ele se aproximou de mim e apertou meu rosto, me obrigando a encará-lo. Minhas bochechas estavam doloridas.

         Zayn avaliou meu rosto e fitou meus lábios. Eu virei meu rosto assim que ele começou a se aproximar lentamente de mim.
         – Vai embora. – Disse calmamente, mantendo a firmeza na voz.

         Ele saiu da sala sem dizer nada, mas a batida com força na porta deixou bem claro que ele não estava nada satisfeito em ser rejeitado duas vezes. Algo me dizia que isso não havia terminado.

Rafaella ON

Sai da academia e fui direto para a agência. Daniel havia me passado uma mensagem, dizendo que dois modelos haviam chegado. Um homem e uma mulher. Era meu dever aprová-los ou reprová-los.

         Entrei na agência já indo para a minha sala, tomando um bom banho e colocando uma das roupas. Passei um perfume forte atrás do ouvido e fui para a sala escura, onde Daniel estava sentado de forma desleixada com uma caneta na boca. Fui me sentar com ele.

         – Por quem você quer começar? – Perguntei me ajeitando.